Raras vezes percebemos e dificilmente reconhecemos. Somos muitos em um. Existem aspectos que admitimos, os que vendemos perante outros e aqueles que engolimos a seco. A maior parte de nós já teve contacto com, pelo menos, um desses três momentos da vida. A realidade suplica por melhorias. Parece meio confuso, do tipo filosofia de praça de candeeiro. A mensagem está pouco clara não é? Pois, é exactamente assim que vejo África. Um traçado confuso. O Berço da humanidade, raiz de todas as ciências, entretanto, seduzido por bugigangas, vinho e espelhos não soube perceber quão forte, essencial e estrutural foi para toda a humanidade. No berço onde iniciou a longa jornada da vida ficou a esfarrapada manta de retalhos com algumas (poucas) partes dignas de cobrir outras prateleiras. Somos o chão do mundo!
Estamos a falar de um conjunto de cinquenta e quatro países que estão na base da herança da humanidade, mas nenhum deles é determinante nos destinos da actualidade. Palco de civilizações antigas, as grandes construções faraónicas, as ruínas de Monomotapa ou os castelos de Tombouctou, erigidos no grande reino do Mali, provam que nem sempre fomos testemunhas impotentes do próprio destino. Como foi possível simples barro e afins terem sido combinados de modo tão sábio ao ponto de resistirem durante séculos ao harmatão, vento poeirento e seco proveniente do Sahara, e à acção do ser humano?
A história de África está recheada de figuras de vulto. De Sundiata Keita, fundador de império do Mali – cujas façanhas são contadas por griôts de geração em geração – à Njimba Mbandi, há referências de líderes que deixaram legado anterior ao período précolonial. Os seus feitos inspiraram gerações seguintes. Dentre os resultados ganha realce o ideal de unidade africana arquitectado por panafricanistas da dimensão de Nkwame Nkrumah. Do sonho de notáveis filhos de África nasceu a Organização de Unidade Africana (OUA), a 25 de Maio de 1963. O objectivo de descolonizar o continente foi atingido. África é composta por 54 países independentes que herdaram, na maioria, as fronteiras artificiais criadas na Conferência de Berlim em função dos interesses coloniais. Cumprida a missão de alcançar a independência política do continente, a 9 de Setembro de 1999, a Líbia testemunhou a transformação da OUA em União Africana (UA).
Meio século depois continuamos na encruzilhada, entre o legado dos precursores da independência e os seus ricos herdeiros, quase todos líderes de povos que traduzem a expressão do sofrimento. Para franja significativa da população do planeta o continente africano constitui o principal exemplo de pobreza. De corrupção e má governação. De conflitos armados e golpes de Estado. De enriquecimento ilícito e de dependência extrema. E de altos contrastes que fazem do continente mais rico em recursos naturais o mais miserável. Pouco mudou, descontando o orgulho de estarmos a construir a identidade na diversidade em cada país que compõe o continente. Situamonos na cauda do desenvolvimento humano.
África atrai olhares de cobiça, mas também de comiseração. O facto de, por exemplo, a Europa buscar estratégias para conter a emigração ilegal enquanto a maioria dos líderes adormece em reuniões improdutivas, deveria ser matéria de estudo. As imagens de milhares de africanos em embarcações degradantes ou a tentar pular a cerca que separa Marrocos da Europa dispensam legendas. Envergonhamnos. Corrói a alma saber que diariamente milhares de desamparados desafiam o perigo para fugir da forme, miséria, perseguição política, injustiças ao extremo e falta de perspectivas. A esperança do lado dos antigos colonizadores.
Apetece perguntar que legitimidade têm os dirigentes para solicitar reparações pelos danos imensuráveis da colonização se a classe política não consegue garantir o mínimo para que o africano comum se sinta cidadão na própria terra. Não vale exaltar um PIB relativamente alto quando existe um fosso abismal entre ricos, geralmente emergentes das elites políticas, e remediados. Evidentemente há excepções em África. Alguns países alcançaram o estatuto de rendimento médio. Outros conseguem transformar o crescimento em rendimentos que se reflectem em melhorias para a maior parte da população. Apontamse bons exemplos. Infelizmente não suplantam o lugarcomum.
O que fazer diante das nossas desgraças é a pergunta que se coloca. Lamentar, engrossar a fila do afropessimismo e aceitar o presente com o famoso “só em África” é demasiado redutor. Urge repensarmos África. Quem somos e que lugar queremos ocupar no mundo. As nossas crianças necessitam de conhecer a história para saberem que nem sempre pertencemos ao lugar classificado como a pior parcela do mundo para se viver condignamente. Terão motivação para resgatar África daquela interrogação cujo ponto é Madagáscar conforme escreveu Agostinho Neto.
A terra mantém o formato. A população mundial aumenta. O mundo evolui. A humanidade dá passos gigantescos. África anda em contramão. Caminhamos parcas léguas desde o dia em que os pais da independência decidiram livrarse do colonialismo. Já conhecemos os problemas. Reflictamos então na busca de soluções, deixando de lado as desgastadas desculpas assentes da pesada herança colonial. As gerações posteriores merecem ultrapassar a condição de matériaprima.
Luísa Rogério
Fonte: Rede Angola, 25 de Maio de 2015