Opinião

A somar makas

makas1 O final Abril, o mês das chuvas mil que garantem a fertilidade das terras, está a ser fértil também em acontecimentos. Na África do Sul a xenofobia mostrou a outra face do arco-íris. No Mediterrâneo mais de novecentos desafortunados morreram afogados na tentativa de atingir a outra margem em busca de uma existência condigna. Enquanto a Europa preocupada com a invasão oriunda do sul busca mecanismos para controlar a emigração ilegal, ou irregular, como alguns preferem denominar o fenómeno, a África continua adormecida sobre problemas que aparentam ser pertença de todos menos seus. Nós, parte integrante deste continente do qual nos distanciamos, apesar da geografia que aqui nos situa, continuamos a somar makas.

Kalupeteka, e a luz do seu mundo, mais o chamado “caso Jindungo” dominaram as manchetes e as redes sociais. Houve mortes de agentes da polícia com requintes de crueldade, segundo vários relatos. Machados, catanas e armas de fogo serviram para matar e desumanizar. O país ficou consternado. O Huambo parou no dia do funeral das vítimas atribuídas aos seguidores do “profeta” que apregoava o fim do mundo. Paralelamente, as declarações oficiais que aludiram à morte de 13 civis afectos à Luz de Kalupeteka, as redes foram inundadas com informações desencontradas sobre centenas de mortes entre os crentes.

É difícil compreender como é que quase mil pessoas morrem sem deixar rasto. Terão certamente familiares, amigos vizinhos ou amigos que questionariam o desaparecimento deles. É pouco crível que se encubra por muito tempo supostas valas comuns com tantos corpos humanos. Ao mesmo tempo, à falta de informação oficial, o manto de sigilo e a inacessibilidade para os jornalistas ao lugar onde tudo aconteceu contribui para aumentar a especulação em torno dos números. Como ainda estou a tentar buscar informações para compreender os meandros do caso Kalupeteka vou aguardar pela divulgação do resultado das investigações.

De qualquer modo, apesar da gravidade dos factos imputados ao dito profeta da luz do mundo, a disseminação da suposta fotografia do mesmo, maltratado e coberto de sangue, em pouco contribuirá para a credibilização do processo. No âmbito do princípio da transparência, é necessário clarificar as circunstâncias da ocorrência quanto mais não seja para transmitir ao cidadão a confiança nas instituições que têm por missão garantir a ordem pública e segurança da população. Sobre presunção de inocência estamos conversados. Cabe agora aos tribunais fazer justiça, pois só a estes compete julgar, condenar ou absolver. Enquanto isso não acontecer, Julino Kalupeteka vai continuar a ser acusado como suposto autor moral e material da matança contra os agentes da Polícia Nacional.

Entretanto, não foi de bom tom a associação da “Kalupetagem”, com o devido respeito pelo nome que não é exclusivo do “iluminado profeta”, a partidos – tão pouco o aproveitamento político tirado dos acontecimentos. O mesmo é válido para a empolação do número de vítimas sem dados credíveis. Por muito menos se acenderam rastilhos com consequências imprevisíveis. Qualquer cidadão que se preze deve em primeiro lugar, independentemente da filiação partidária, credo religioso ou origem etnolinguística, primar pela busca da verdade e transparência em torno do caso. Dizem os manuais que em política vale quase tudo para atingir objectivos, mas buscar dividendos de uma situação que enluta famílias é indecente. Há valores supra-partidários. A vida está, indiscutivelmente, acima deles. Basta a morte de um ser humano para gerar indignação.

A indignação foi igualmente aflorada pelo revoltante “caso Jindungo”, tema de próxima abordagem. Como mulher e cidadã, não posso adiar a manifestação total de solidariedade para a jovem vítima da maldade inqualificável e seus familiares. Deixo aqui um estrondoso bem-haja ao grupo de cidadãos que teve a iniciativa de reflectir a indignação numa carta endereçada à Procuradoria Geral da República, solicitando a averiguação imparcial do caso. Cruzar os braços equivale a pactuar com actos de violência contra a mulher motivados pelos “Miguéis” da vida. O erguer da bandeira do inconformismo chama-se atitude. E cidadania!

 

Fonte: Rede Angola, 27 de Abril de 2015

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