O governador do Namibe, Rui Falcão, alertou a sociedade e os investidores locais para a importância de se preservar melhor o vasto mosaico cultural da província, particularmente nesta fase de reconstrução, em que a criação de grandes infra-estruturas pode apagar uma parte da memória colectiva.
Em declarações ao Jornal de Angola, a propósito do Dia da Cultura Nacional, assinalado na quarta-feira, destacou a importância de se cuidar mais do património nacional, de forma a respeitar e seguir os princípios da UNESCO sobre a preservação da herança cultural dos angolanos, nesta nova era de reconstrução.
A criação de novas infra-estruturas são sempre bem-vindas, especialmente quando não apagam os contornos de uma arte bicentenária, que devem, moralmente, preservar e valorizar para as futuras gerações. “O trabalho do Executivo nesse sentido tem sido notável, particularmente no processo de desenvolvimento socioeconómico e cultural, assim como na valorização, divulgação e defesa do património histórico e cultural. Por isso, estamos absolutamente convictos que os investimentos vão continuar a ser feitos, no sentido de valorizar todos os fazedores de cultura”, salientou o governante.
A dinâmica do mundo moderno, realçou, apresenta novos desafios ao desenvolvimento cultural e obriga os artistas e agentes culturais a serem criativos e a organizarem-se para que o produto final apresentado ao público tenha aceitação. “A formação, a investigação e a preservação, são as únicas garantias de valorização e enriquecimento do património cultural”, garantiu.
Os centros culturais, casas de cultura, museus, bibliotecas e arquivos, reconheceu, só vão cumprir as suas obrigações de instituições de promoção, valorização, recolha, protecção e difusão de bens culturais, para a qual estão vocacionados, se dispuserem de quadros competentes e forem amplamente utilizados e frequentados pela população.
Em relação ao fenómeno religioso, deixou um apelo aos responsáveis das igrejas não reconhecidas, no sentido de respeitarem a lei sobre o exercício da liberdade de consciência de culto e de religião vigente no país. “Como servidores do Estado somos obrigados a acatar e fazer cumprir a Constituição e a Lei. Desta forma, pedimos a colaboração de todos na denúncia de todas as práticas que violem as normas ou vão contra os princípios e valores socialmente aceites, preservando a vida como um valor inalienável e inviolável, enquanto o desrespeito pela pessoa ou o seu uso assente em crença e valores que não defendem a vida deve ser severamente reprimido nos termos da lei. A liberdade de imprensa, de culto ou religião, não serve para justificar tudo, particularmente quando se põem em risco terceiros, muitas vezes ingénuos e desconhecedores dos reais direitos que a Constituição lhes confere”, advertiu o governador da província do Namibe.
Protecção dos sítios
A protecção das estações rupestres, em especial agora, com o projecto do Executivo de inscrever Tchitundu Hulu como Património Mundial da UNESCO, passa a ser uma prioridade da sociedade, particularmente dos habitantes do Namibe, considerou Rui Falcão.
Por sua vez, a directora provincial da Cultura, Euracema Major, disse que o trabalho do Governo Provincial tem sido notável, em especial no desenvolvimento, valorização, divulgação e defesa do património histórico e cultural, assim como ao garantir a criação e a produção musical e literária. A salvaguarda do património histórico-cultural, móvel e imóvel, é, para Euracema Major, não só da responsabilidade do Governo Provincial, mas de toda a sociedade. A província do Namibe apresenta particularidades ímpares no domínio cultural, já que alguns habitantes locais ainda conservam os seus costumes ancestrais, muitas vezes representado na dança, modo de vida, culto aos mortos e ao gado.
“Somos detentores de um rico património cultural herdado dos povos que habitaram a região ao longo dos tempos, representado por pinturas e gravuras rupestres, muitas vezes agrupadas em estações arqueológicas, furnas e sítios históricos ou ainda pela arte funerária Mbali, assim como com edifícios que constituem o ex-líbris da monumental arquitectura colonial, como a fortaleza de São Fernandes e a do Capangombe, as igrejas de São Adrião e Nossa Senhora da Quipola, do Rosário e dos Navegantes do município do Tômbwa, e de Fátima, na Bibala”, concluiu.
Falta de incentivos
O artista plástico Gustavo Nuno, lamentou ao Jornal de Angola o facto de nos últimos anos a classe artística na província estar a decair, devido às dificuldades financeiras, que inviabilizam a concretização da maioria dos seus projectos. “Só é possível fazer arte com pessoas motivadas, apesar de serem vários os factores de motivação. A criação de um prémio de cultura e arte, a nível provincial, à semelhança de outros, atribuídos por instituições, pode ser um passo para dignificar a classe e uma forma de atrair, também, o empresariado local”, considerou.
Fonte: Jornal de Angola, 10 de Janeiro de 2014
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